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Esse tal coração calejado

Pra expressar a dor, é preciso vomitá-la. Chegar ao fundo dela, rastejar. Passar pelo processo da negação, da dormência. Depois, sofrer. Sentir o nó na garganta, a dor no peito, que passa pro corpo, e vem a febre, os soluços. Aí sim.
Só tem um coração calejado quem já sofreu demais. Várias vezes, ou intensamente. E talvez não exista expressão melhor pra definir do que essa. 
Um coração calejado não sente com tanta facilidade. Ele é duro, aguenta porrada - é calejado. Claro, tem sempre algum machucado novo que pode foder com ele. Aí, é aquele processo de novo. 
Sempre me neguei a generalizar as pessoas, a desacreditar do amor, a me amargurar. Sou otimista por natureza. Porém, com o tempo, acho que a gente fica mais cautelosa. Ou mais desiludida mesmo. 
É um exercício diário o de me lembrar, constantemente que, existem sim pessoas boas, honestas, sinceras, legais, e que valem a pena. Só estão comprometidas. 
E, claro, existem uns machucados piores que os outros. Normalmente, os piores são aqueles que vem de pessoas que a gente se joga demais. Por algum motivo, a gente deposita muita confiança em algumas pessoas. Seja por conhecê-las há muito tempo, ou porque a gente viajou que elas mereciam, ou porque rolou uma química boa, ou porque já tinha uma amizade. Whatever. Se não tiver motivo, a gente sempre dá um jeito de inventar. Esse é o menor dos problemas. É uma queda livre, de sabe-se lá quantos km. Uhu! Se joga, gata! Vai com tudo e se esborracha no chão.
E tem as promessas. Porque, sim, todo mundo se acha diferente de todo mundo. Mas, na verdade, não sei se isso existe, de verdade. Claro, rola aquela coisa de a gente ser único e blablabla. Mas eu digo, nessa coisa de amor. Ninguém age diferente, realmente. As pessoas pensam em si, e tão pouco se fodendo pro quanto podem te machucar. 
Por algum momento, você volta a acreditar, ou tem uma ponta de esperança. As borboletas no estômago, something like that. É incrível como essas coisas acontecem. Como alguém pode te fazer sonhar acordado, e depois pode simplesmente te manter acordado, porque você não consegue mais dormir. Fico impressionada como esses sentimentos podem se transformar abruptamente, de um extremo ao outro. Uma hora, você ri sozinha, e, na outra, é uma dor intensa. E a mesma pessoa pode te causar as mesmas sensações. Só que você a preza tanto, que não dá um nome. Só sente e espera passar. E, ainda assim, quer deixar o lugar daquela pessoa ali, guardado, como lembrança. Como se fosse um lugar no teatro que você deixa reservado, pra alguém que vai se atrasar.     
Um amigo, uma vez, me alertou sobre um tipo específico que é muito perigoso: poetas. Devo me lembrar desse conselho, fazer uma nota mental, e manter sempre uma distância de quilômetros.   
Eu, com a minha mania de compreensão, até compreendo mais ou menos o que rola nessa coisa de sair machucando a galera por aí. Hoje tá uma onda de poliamor. Vejam, não to desrespeitando e nem deslegitimando a galera do poliamor. O negócio é que, ao meu ver, as pessoas vêem tantas possibilidades que não conseguem focar em um único amor, uma única pessoa. Então, pra quê se dedicar exclusivamente a um só ser, se você pode ter vários ao mesmo tempo?! O negócio é que nem todo mundo vive realmente isso - digo, nem todo mundo diz que vive isso. Acho ótimo uma pessoa falar abertamente pra quem vai se relacionar que tá nessa vibe de poliamor ou relacionamento aberto - whatever, e quem quiser que pule dentro ou fora do barco. É honesto. Falar antes, veja bem, porque depois, aí já era, né, darling? Bom, eu não sei lidar com isso. Acho ótimo, super moderno, admiro quem consegue - deve ser um jogo de cintura da porra, mas devo estar velha pra isso, talvez. Ou meu coração é pequeno demais pro poliamor. Vai ver. Mal dá conta do amor, que dirá do poli.

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