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Das maiores saudades

Dizem que a palavra "saudade" só existe em português. Pra falar a verdade, nunca pesquisei pra saber se procede.
Já senti várias saudades, desde que me lembro. Senti saudade dos meus pais na primeira vez que eles viajaram, e me lembro da querida e finada D. Leó ao meu lado até que eu adormecesse. Senti saudade da minha melhor amiga, Sissa, quando, aos 5 anos, nos mudamos de São Luís pro interior de São Paulo, porque meu pai tinha vindo fazer uma obra. Eu brincava o dia inteiro com ela, todos os dias, e foi super difícil me separar da minha primeira melhor amiga. Depois, senti amigos que deixei em Mogi das Cruzes, mas que ficaram na lembrança até se apagarem da memória, por falta de contato. Então, senti saudade dos amigos e amigas que foram mudando de escola. E aí, senti, por um bom tempo, muita saudade de um primo com quem cresci desde que me lembro, por circunstâncias da vida que fomos nos afastando até cada um seguir um caminho tão distante que hoje nem sei bem como ele tá. Mais tarde, fui sentindo saudade de paixões que a adolescência me trouxe com tamanha intensidade, pelas quais eu sofria, chorava, me descabelava... Senti saudade de amigas que fizeram intercâmbio, dentre elas, a minha primeira melhor amiga de novo (de quem sentia uma saudade muito doída), pra quem eu escrevia e de quem eu recebia longas cartas de atualizações de novidades, mesmo que já existissem e-mails. Sinto saudade de amigos que já se foram. Um que brincávamos nos chamando de irmãos. Muitas vezes, me pego chorando de saudade dele, só desejando encontrá-lo em qualquer esquina, como costumava ser. Senti uma saudade imensa dos meus pais e de um amor quando fiz uma tentativa frustrada de um intercâmbio que duraria um ano, mas durou um mês. Depois, sentia uma saudade enorme do meu ex marido nas vezes em que nos separamos por pequenas viagens. A ausência dele, nas pequenas coisas do dia a dia, ou do meu lado a noite, sempre me doíam. Hoje, sinto uma saudade absurda de amigos e amigas que ficaram em São Luís, outros e outras espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Sinto muita saudade de um primo que não vejo há muitos anos e mora do outro lado do mundo. Morro de saudade do meu melhor amigo, de quem estive por tantos anos distante, e nos reaproximamos há tão pouco tempo, e agora estamos distantes fisicamente de novo. Muitas vezes, eu queria poder abraçá-lo e não posso. Sinto muita saudade das minhas vacas, porque ao mesmo tempo que elas são muito presentes, por nos falarmos o tempo todo, tem tanto que eu queria dividir com elas, mas estamos cada uma em um lugar. Sinto uma saudade imensa dos meus pais. De coisas pequenas, como poder dar um beijo, ou um bom dia, almoçar junto. Sinto muita saudade dos meus irmãos, meus sobrinhos lindos. De rir, conversar, brincar. De conversar com a minha afilhada, e me maravilhar em como ela tá grande, uma mocinha, e me apaixonar cada vez mais por quanto ela tá amadurecendo e se tornando uma mulher de quem eu tenho orgulho. Sinto muita, muita saudade dela.
Algumas saudades foram maiores que as outras, claro. Umas doíam cada pedaço do corpo. Outras, um nó na garganta, um aperto no peito. Umas me fizeram chorar até dormir. Outras, nem me deixaram dormir de tanto chorar. Já tive saudades de coisas que eu nunca vivi, de pessoas que eu nunca vi, de momentos que nunca tive. Tive saudades estranhas, e saudades velhas conhecidas.
Todas elas juntas não se comparam à saudade que eu sinto dos meus filhos. Saudade dos abraços inesperados, daquele "agarro" na perna que não me deixava andar, daquele grude. De dormir abraçado - não dormir, no caso. Das conversas despercebidas, de ir ao cinema, de fazer coisas juntos. De querer ouvir alguma música mais girly, e o meu Matheus me pedir "não, mamãe, coloca Beatles", e o meu coração se derreter todo por ver que o meu filho ter um bom gosto musical. Ou de "me assustar", mas achar graça por ver que o caçula se diverte com o barulho a música do pai dele(death), e até tenta imitar o vocal - e aí, claro, tentar influenciá-lo empurrando um Ramones. De estar fazendo qualquer coisa, a qualquer hora do dia, e vir um dos dois (meu Teteu, mais frequentemente), me abraçar e falar "mãe, eu te amo muito, sabia?", incontáveis vezes por dia. De ficar enrolando meu caçula, fingindo que não tô entendendo alguma coisa que ele tá me explicando só pra poder ouvir mais a vozinha dele, que é tão gostosa de ouvir, e eu sei que logo vai mudar, e ele vai começar a falar direito, parar de trocar as letras, e eu sei que vou morrer de saudade...   De voltar do salão e os dois virem correndo pra ver o que eu fiz de diferente. Ou de terminar de me arrumar e ouvir os elogios dos meus meninos. Ou até mesmo de acordar de qualquer jeito, e ouvir o meu mais velho me falando o quanto ele sempre me acha linda. Sinto saudade de ver a carinha de bravo do mais velho, e o jeito que o mais novo sempre tenta agradá-lo. Sinto saudade de poder confortá-los quando choram, ou quando têm medo. De poder dar bom dia. Saudade do mal humor matinal do Teteu, que sempre deixou de ser mal humor só comigo, e eu sempre me identifiquei tanto com aquele meu menino, que acorda com tão poucas palavras, mas me enche de beijos e abraços, mesmo que o resto do mundo inteiro pareça cinza pra ele ao acordar. Saudade de como meu caçula acorda sorrindo, tão diferente de mim, e, de repente, parece que minhas manhãs ficaram felizes. Saudade daquele sorriso fácil e sapeca dele. Do charminho que ele sabe que tem, e dos trejeitos que faz desde neném. De pegar nas mãozinhas deles, andar de mãos dadas. De irmos à livraria e ficarmos sem hora lendo livros juntos. De ensiná-los uma receita e vê-los orgulhosos de terem conseguido, ou de não ter hora pra dormir. De poder ficar só admirando-os, vendo-os fazer qualquer coisa, e me maravilhando e deliciando por eles existirem, e, apesar de não serem "meus" - mas serem - serem pra sempre a realização de um sonho e o maior amor da minha vida. Sim... essa, sem dúvida, é a maior saudade. Mas, graças a Deus, em breve vou tê-los nos meus braços.

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