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Carta para minha futura nora (2)

Esses dias vi circulando no facebook uma "carta para minha futura nora", e eu, sendo mulher, alinhada politicamente ao feminismo radical, mãe, não pude deixar de problematizar... Pensei, pensei... por fim, resolvi escrever a minha própria versão de carta para minha(os) futura(os) nora(genros).

Vem cá, vamos conversar.
Esqueça tudo que você já ouviu falar sobre sogras. Eu não te vejo como concorrente, e tenho plena consciência de que o tipo de relacionamento que você e meu filho tem é completamente diferente do relacionamento que eu, como mãe, tenho com ele. Nós podemos ser amigas, e, pra te falar a verdade, ficarei muito feliz se formos. Não, você não precisa se preocupar em me agradar demais pra me conquistar nem nada disso. Veja, eu não vejo meu filho como uma extensão de mim. Sim, eu o amo muito, e tenho ensinado a ele tudo aquilo que acredito ser importante pra que ele possa caminhar com os próprios pés e fazer as próprias escolhas.
Como mãe, meu maior desejo é que ele seja feliz. E, se vocês estão juntos, torço muito pela felicidade de vocês.
Eu o criei a base de muito diálogo desde sempre, e nosso relacionamento sempre teve como princípio básico a sinceridade e honestidade como valores fundamentais. Portanto, quero que você saiba que, sim, eu o amo muito, mas, não, eu jamais vou ser cúmplice de qualquer mentira dele, disso você pode ficar tranquila.
Ele provavelmente cresceu assistindo aos mesmos desenhos que você, pois sempre combati estereótipos de gênero em sua criação.
Meu filho não aprendeu comigo que não deve bater em mulheres ou desrespeitá-las por serem o sexo frágil. Ele aprendeu a ter respeito e empatia por todas as pessoas indistintamente, como um ser humano deve ser.
Espero que você não o ouça reclamar da sua roupa ou das suas amizades, porque, sim, acredito que, como uma pessoa apaixonada, pode ser que ele sinta um pouco de ciúmes, porém, espero que ele tenha aprendido que você é uma pessoa e não um objeto que ele pode ter posse. Dessa forma, sim, pode ser que vocês tenham seus acordos dentro do relacionamento e cada um faça uma ou outra concessão. Ainda assim, torço pra que meus ensinamentos tenham surtido efeito suficiente pra que ele saiba que um relacionamento saudável deve ser igualitário.
Não sei se você tem religião, mas quero que você saiba que o criei de forma a entender que existem diversas religiões no mundo, e que essa é uma escolha pessoal e jamais deve ser imposta. Como mãe, me esforço pra que ele conheça livremente as religiões e aprenda que todas devem ser respeitadas igualmente.
É importante que eu te diga que te entendo, e que já estive no seu lugar. Saiba que eu jamais vou querer te expor a situações constrangedoras ao conviver comigo. Ainda assim, pode ser que eu erre. Se isso acontecer, quero que saiba que você tem total liberdade pra conversarmos.
Ele nunca aprendeu a ajudar em casa. Na verdade, sempre que posso, o ensino a responsabilizar-se por aquilo que é de sua responsabilidade. Assim, não espero que ele te ajude, mas que ele saiba dividir com você as responsabilidades em comum e saiba caminhar contigo lado a lado, e não que ele seja um peso nas suas costas pra que você termine o trabalho de criá-lo. Não, tenho consciência de que esse trabalho é meu e do pai dele.
Por fim, não me entenda mal, mas a minha casa não é mais a casa dele. Vocês sempre serão bem vindos, a qualquer hora e em qualquer dia, pelo tempo que vocês quiserem. Porém, eu o criei pra que ele cresça, a seu tempo, e trace seu próprio caminho. Se vocês quiserem ter filhos e me darem netos, ficarei muito feliz. Mas, se não quiserem, também ficarei, sabendo que vocês escolheram aquilo que lhes fará mais feliz.
Ao contrário do que você poderia esperar de uma carta vinda da sogra, não, eu não vou te fazer qualquer "alerta" sobre magoá-lo ou coisa do tipo. Acredito que as coisas acontecem como devem acontecer, e do relacionamento de vocês, apenas vocês devem saber.


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