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Dia Mundial do Orgulho LGBT

Como eu sempre disse(aqui e ali), sempre fui muito verdadeira comigo mesma e com os outros, na medida que o meu subconsciente me permitiu. Claro, passa o tempo e a gente vai descobrindo que algumas coisas não eram bem assim ou assado, e a gente vai se conhecendo melhor. O que eu quero dizer é: sempre vivi aquilo que eu acreditei ser a minha verdade. Nunca me escondi de ninguém. Sou impulsiva, e sempre paguei o meu preço por isso, sem correr pra debaixo da saia da minha mãe pra me esconder.
A minha família criou uma cultura própria de ser muito reservada, muito de cada um na sua. A gente conversa, claro. Mas certos detalhes mais íntimos, acho que sempre ficaram mais entre os meus pais, ou entre o meu pai e o meu irmão. Venho de uma família tradicionalmente patriarcal, o que significou várias frustrações seguidas ao longo da minha vida por ter me espelhado profissionalmente no meu pai, enquanto o meu destino, desde que nasci, sempre foi viver à sombra do meu irmão, no matter what. 
Claro que hoje sou uma mulher e não posso viver de acordo com o meu passado. O que passou, passou, e é daqui pra frente(Como se a vida fosse tão simples e nós fôssemos rôbos, ok).
Bom, na primeira infância, não me dava conta de todas essas diferenças e realmente acreditava que um dia eu seria sucessora do meu pai. Sempre fui muito mimada por ele. Mas, à medida que fui crescendo, fui vendo todas as diferenças de direitos e deveres dentro de casa, e isso foi me incomodando e eu sempre questionando. E a resposta era sempre a mesma: "porque você é menina, você é a mais nova", com a maior naturalidade possível. Mas, pra mim, isso nunca fez sentido. Sempre fui estudiosa, responsável, pontual, dedicada, esforçada, multitarefas. Durante praticamente toda a minha vida escolar eu era a primeira a acordar, com o meu próprio despertador, e acordava todo mundo. Fazia meu próprio café da manhã. Me lembro disso desde os 8, 9 anos de idade. Não precisava que me mandassem fazer o dever de casa ou estudar pras provas. Tirava as melhores notas. Não entrei na moda do lança perfume ou do loló, porque achava que aquilo decepcionaria os meus pais. Eles sabiam quando eu bebia, com quem eu saía, que horas, pra onde. Minha mãe foi a segunda pessoa pra quem eu contei quando perdi a virgindade. A primeira foi a minha irmã.
Desde fiquei com meninas, nunca me escondi. Tinha vontade desde que me lembro. Sempre gostei de meninos e meninas. Porém, meu pai, sempre foi muito conservador, e eu sempre soube que a opinião dele a respeito disso era muito negativa. Minha mãe, não. Sempre foi de boa. Trabalhou com gays, achava-os ótimos, e nunca viu problema neles. Eu sempre tive amigos gays, e nunca os escondi dos meus pais. Eles nunca me perguntaram o que eu era, porém, eu nunca levei em casa uma pessoa que eu ficasse uma vez só, e, antes de casar, eu era o tipo que queria ser sempre solteira.
Casei, tive filhos, separei.
Voltei a ficar com meninas, mas morando sozinha.
Meu irmão, que sempre soube, me disse que minha família andava desconfiada, e conversando a respeito. Eu não via motivo pra chegar e falar. Eu falaria, tendo alguém. Mas, assim, sem mais nem menos?! Se eles me vissem com alguém, tudo bem. Nunca foi diferente pra mim. Tem fotos no meu facebook com meninas que eu já fiquei, todos meus amigos sabem, e São Luís é um ovo. Enfim. O que eu sempre pensei foi: caso eu tenha uma namorada, apresento pros meus pais, converso, explico.
Acontece o seguinte. Meu relacionamento com a minha irmã sempre foi dos piores possíveis. E, em cada briga, ela sempre usou as piores coisas que ela pudesse usar contra mim, na presença das pessoas que pudessem se machucar com aquilo. E, na penúltima vez que fui pra São Luis, tivemos uma briga. Além de ela ter dito coisas horrorosas pros meus filhos ouvirem(o que, obviamente, me destruiu por completo), ela gritou que eu fico me "esfregando na rua com um bando de mulher na rua" na frente da minha mãe. Pronto. Meu outting pra minha mãe.
Ela agiu normalmente depois e nunca tocou no assunto.
Não gosto de coisas mal resolvidas, assuntos pela metade.
Essa última semana estive em São Luís. Há 4 dias me assumi, abertamente, pros meus pais. Por mais que eu nunca tenha me escondido da sociedade, no geral, eu nunca tinha falado, em palavras claras, pra eles. A reação da minha mãe foi a mais linda possível, e hoje eu a amo muito mais por isso(se é que é possível), e isso me deu muito mais conforto, mais segurança, mais paz no coração. O meu pai se assustou, mas tá tentando absorver tudo isso. Apesar disso, continua o mesmo, e eu já imaginava que seria assim, mesmo um dia ele tendo me pedido "pelo amor de Deus, não vai me fazer uma coisa dessas que eu não sei nem o que eu faço!". Eu sei que eu sempre disse que sou assumida em tudo. Mas, a verdade, é que isso pra mim foi um grande alívio. Poder falar abertamente pros meus pais: "eu gosto de meninos e meninas".
Já me disseram pra eu "não me expor". Que eu posso ser bissexual, mas que não preciso me expor. Eu não concordo com isso e jamais vou agir assim. Essa não sou eu. Eu luto pelos meus direitos e pelos direitos dos meus iguais. Luto pelos direitos LGBT e pelo feminismo, para que tenhamos nossos direitos reconhecidos. E se um casal heterosexual pode andar de mãos dadas e se beijar na rua, porque não um casal homossexual? Amor é amor. Feio é o preconceito.
Eu sei que a maioria dos LGBT não tem a sorte de ter os pais que eu tenho, e isso me dói muito. Eu tenho amigos e amigas que sofrem isso dentro da família, e eu sofri por eles, sofri com eles. Me doeu cada vez que eles sofreram rejeição dos pais deles, ou tiveram que ouvir merda de supostos "amigos". Eu tive uma cabeleireira transexual que eu adorava, e no mesmo dia em que eu tinha ido ao salão, ela foi assassinada à noite, na própria casa, por ser transexual. Aquilo me chocou de uma forma terrível. Quando eu li a notícia, só chorei e chorei. Por que alguém morre por ser o que é, sem fazer mal a ninguém? Isso é um absurdo! Isso precisa acabar!  
Eu tenho orgulho de todos os meus amigos homossexuais e bissexuais, de coração. Não tenho amigos aleatórios. Meus amigos são selecionados, e cada um deles tem qualidades, talentos e caráter imensuráveis.
A primeira amiga que eu tive assumidamente lésbica é uma pessoa maravilhosa. Ela é espontânea, super criativa, já passamos por mil coisas juntas, e tem um coração imenso. Super talentosa. É um ser único. Ela brilha, e eu a amo muito, e agradeço demais, porque, por causa dela, eu pude me assumir também. Nós nos conhecemos desde crianças, conhecemos uma a família da outra. Adoro os pais dela (o pai in memorian), e a gente pode passar anos sem se ver - quando a gente se encontra, parece que não passou tempo algum. É o mesmo amor, o mesmo carinho, a mesma amizade. 
Então, hoje é o dia mundial do orgulho LGBT. Sim, eu tenho orgulho de fazer parte disso. Tenho orgulho por mim, e por todxs xs amigxs que fazem parte disso, sejam LGBT ou simplesmente apoiadores da causa, porque, sim, tenho amigxs heterosexuais que apoiam a causa, porque são lindxs de coração, e entendem que somos todos iguais. Assim como a minha mãe me apoia, e ela jamais vai ter noção do tamanho da gratidão que eu sinto no meu coração por tê-la ao meu lado nisso.
E é por isso e tantas outras coisas que, sim, acredito que as crianças precisam aprender a respeitar a diversidade dentro da escola desde pequenas. E vou continuar acreditando e lutando por isso.
Continuemos, queridxs!

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